Se há dias em que nos sentimos, aos poucos, a perder os sentidos: ontem foi um desses dias. Perdi o chão, perdi a lucidez, perdi a visão e a audição. Todos os sentimentos que transbordavam em mim (e transbordam ainda) saíram em forma de lágrima. De outra forma foi impossível pois perdi também a voz. As tuas palavras não me saem da cabeça, é como se se tivessem repetido vezes sem conta, como um gravador, como um eco. E parei, paralisei a repeti-las também, sem conseguir acreditar. Não me cabe ainda no peito esta dor, esta ferida. “É só uma casa. Tomara termos saúde.” Verdade. Mas mentira, não é só uma casa. Ou se o era, então há casas com vida. Há casas que falam, que ouvem, que nos fazem sentir que não estamos sozinhos. Que se falassem, escreviam uma colecção de livros. Que se pudessem ver, veriam a minha cara feliz, das mil vezes que lá entrei, e abri as portas. Que se pudessem sentir, sentiriam a mais feliz das sensações por entre todos os momentos maravilhosos que lá tem dentro. Um dia, seria essa a minha casa, aquela onde iria ver os meus filhos crescerem, o lugar onde ia leva-los para depois da escola, ouvirem o mar. O lugar onde iria perpetuar a sensação de liberdade que, até aqui, só vivi numa altura do ano. Parece que as rotas mudam sempre, levam-nos sempre por caminhos que inicialmente não tínhamos sequer imaginado como possíveis. É isso que está a acontecer. Tentar tornar possível algo que era impossível. Mas como? Há alguma fórmula? Alguma injecção que se possa tomar para apagar tudo – mil registos – e sentir a frieza (necessária nestes casos!) de poder dizer “era só uma casa”? A certeza de existir um lugar onde me pudesse esconder do mundo e ficar bem, uns dias, umas horas, uns anos… morreu. Esse ponto certo onde acabava sempre a ouvir o mar e a escrever, deixa de existir. As respostas que o mar me deu ou me pudesse vir a dar, já não existem – nunca mais lhe vou querer fazer perguntas. Olhar para a casa e não me ver dentro dela a sorrir e a escrever (mas sim outras pessoas estranhas), será com toda a certeza, o dia mais infeliz da minha vida. Desta forma, preferia nunca te ter conhecido, pelo menos agora não tinha de te perder. A ti, Casa da Praia.



5 comentários:
Olá... venderam a casa da praia?Fogo vim ler todo contente o teu livro/blog e leio logo esta noticia... :(
Toda gente passou bons momentos naquela casa! :)
Oi! Por enquanto foi só posta à venda ainda... mas pronto... Queres ajudar-me a comprar?????? .p Este texto já foi há umas semanas... mas it's sad anyway...reality!
eu tive um sonho que em que isto não aconteceu...
quem me dera ter esse sonho...
acreditas que fiquei petrificada quabdo dei de caras com o letreiro "vende.se"?! não é só uma casa, é verdade... é mais do que isso. Mas fica tranquila: tudo o resto que te enche a alma nunca poderá ser vendido. bjs.
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