
Um dia disseram-me que há uma altura da nossa vida em que já sabemos reconhecer a dose certa de sal que devemos pôr na comida. Aquelas pedrinhas, uma a uma, presas dentro daquele bocadinho de mão, têm uma porção que vamos reconhecendo com o passar do tempo. Uma pedra de sal a mais na mão e sabemos de imediato que temos de voltar a colocar o restante dentro do frasco. Estamos a fazer um prato delicioso e subitamente percebemos que as pedras de sal são aquelas cinco, e não as seis que temos na mão. É como um sentido mais apurado que só se consegue passados muitos anos. Disseram-me que não era fácil chegar lá e que, muitas vezes, se formos pessoas demasiado amargas, nem chegamos a reconhecer este dom. Porque não é em qualquer altura que a nossa mão reconhece essa porção indicada de sal. E não é qualquer pessoa. Mas cada um tem a sua. Cada mão tem a sua pitada de sal. E é intransmissível. Ora se pensarmos nas nossas vidas, vemos que é igual. Só o passar dos anos nos vai ensinando a quantidade certa das coisas. Certa para nós, claro. Pensamos, repensamos, questionamos aquela situação e há alturas em que recusamos mesmo essa pedrinha de sal a mais. Mas nunca sabemos bem se essa altura já chegou, se é o momento de voltar a colocar no frasco. Nunca sabemos ao certo se estamos nesse limite ou não. E o tempo passa e muitas vezes penso nessa porção de sal indicada. Será que saberemos quando essa altura chega, tal e qual sabemos com o sal - com o passar dos anos?



