quarta-feira, 25 de novembro de 2009

V. «A guarda-segredos»

Havia um texto que eu gostava muito que se chamava “a guarda segredos”. Falava de uma secretária que não gostava que lhe chamassem papeleira porque ela não guardava papéis como todas as pessoas diziam. Ela guardava segredos, daqueles que só se contam uma vez na vida e a maior parte das vezes, a um papel. Estava anos e anos no mesmo lugar mas as pessoas, de geração em geração, iam escrevendo segredos únicos que pensavam que ninguém mais conhecia mas existia a guarda segredos que se pudesse escrever, escrevia livros. No entanto, mantinha-se sempre calada, à espera que mais uma pessoa lhe fosse contar um segredo.

Hoje, quando escrevo imagino que a minha secretária tem uma vida própria, que se de repente ela pudesse falar comigo me ia contar coisas que eu nunca imaginei. Acredito que quando escrevo sobre coisas tristes, que lhe apeteça fazer-me parar para me dizer que não vale a pena estar assim nem escrever sobre o assunto. Mas não pode, e aí surgem os poemas que fazem chorar.

E entre um segredo e outro, surge mais uma palavra ou uma lágrima a que a nossa secretária assiste mais uma vez, calada e quieta.

sábado, 21 de novembro de 2009

IV. «O navio dos Espelhos»


Não tenho medo daquilo que eu vejo. Tenho medo daquilo que eu não vejo, de todas as coisas que estão escondidas por detrás dos panos; atrás de uma esquina; dentro de um olhar; numa alma; numa casa; num abraço; num beijo; numa lágrima; num banco de jardim; num cinema; numa escada; em cima de um telhado; dentro de uma cama; atrás de uma roupa bonita; num jantar; num laço de avental; numa conversa; num sorriso. Tenho medo daquilo que as pessoas não mostram. Daquilo que não dizemos em voz alta para dizermos por debaixo dos lençóis. Das ruas que são compridas e eu não vejo onde acabam. Das casas grandes com famílias felizes [quando afinal se ouvem gritos à noite]. Daquilo que as crianças não dizem quando se escondem a brincar sozinhas num jardim. Tenho medo dos segredos. Da gaveta de baixo, onde se escondem as cartas que ninguém pode ler. Quando, por momentos ficamos lúcidos e dizemos realmente aquilo que sentimos. Dos olhares indiscretos que se fazem na rua, entre milhões de pessoas e em que não se disse nada. Tenho medo das fotografias que se escondem num álbum quando temos medo de dizer que esse momento foi realmente importante. De quando a palavra amor se associa à pessoa errada. Das mentiras. De todas as coisas que estão escondidas por detrás dos panos.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

III. «Metros Quadrados»

O espaço. O sentido de espaço que nos ensinam quando somos crianças assemelha-se a um campo cheio de trigo, cheio de magia e canções de embalar. Muitos metros quadrados de espaço, á primeira vista, a perder de vista. Esse espaço era difícil de conseguir, era preciso correr muito depressa para se chegar lá e quase nunca se atravessava completamente esse campo de trigo, do seu principio ao seu fim. Primeiro era o espaço no seio da família, era normalmente o mais complicado porque era o primeiro. Ainda por cima não sabíamos falar, por mais que nos custassem as coisas, tinham de ser aceites, nunca soubemos muito bem dizer a palavra “não”. Por isso é que mais tarde era muito complicado quando nos diziam essa palavra, não era normalmente bem aceite, não a conhecíamos ainda. Depois o espaço no meio dos amigos. Esse era mais pequeno, sabíamos sempre que se seguíssemos certos “clichés”, atravessávamos calmamente esse campo. Ás vezes era mais complicado, com aquelas pessoas que nos faziam mal, esses pequenos - grandes - trigos no meio dos trilhos complicados. Mais tarde, procurávamos um canto pequeno que nos explicasse que coisas eram aquelas que sentíamos, sem ninguém saber, quando olhávamos para certas pessoas. Uns chamavam-lhe amor, outros chamavam-lhe “primeiros conhecimentos do coração”. Eu chamava-lhe “campo de trigo em labirinto”, perdia-me sempre um bocadinho. Um dia, tive de procurar no mundo do trabalho esse outro espaço, esses metros quadrados que me ensinaram quando eu não sabia falar. E encontrei o maior campo de trigo que alguma vez tinha visto. Fiquei aterrorizada quando percebi que o campo era realmente de perder de vista e que eu tinha de correr mesmo depressa para chegar a algum lado. Se calhar, ganhei alguns sonhos, se calhar sonhei um bocadinho e vi algumas estrelinhas no meio de um campo cheio de nada. Se calhar ganhei vontade de descobrir como se atravessa esta dúvida, este mundo enorme e abismal á minha frente. Confesso que neste dia gostava de ter aberto o meu manual na página 21 e ter visto as instruções para perder o medo, para ganhar confiança e vontade de correr. Acho que o que o meu manual ia dizer era que eu não precisava de correr e cansar-me muito, precisava só de ver tudo como um campo de trigo, cheio de sonhos e desejos. A verdade é que nunca nos ensinaram os metros quadrados da vida, o sentido de espaço do mundo, só nos disseram que era enorme e que teria muita gente à nossa volta.