terça-feira, 17 de novembro de 2009

III. «Metros Quadrados»

O espaço. O sentido de espaço que nos ensinam quando somos crianças assemelha-se a um campo cheio de trigo, cheio de magia e canções de embalar. Muitos metros quadrados de espaço, á primeira vista, a perder de vista. Esse espaço era difícil de conseguir, era preciso correr muito depressa para se chegar lá e quase nunca se atravessava completamente esse campo de trigo, do seu principio ao seu fim. Primeiro era o espaço no seio da família, era normalmente o mais complicado porque era o primeiro. Ainda por cima não sabíamos falar, por mais que nos custassem as coisas, tinham de ser aceites, nunca soubemos muito bem dizer a palavra “não”. Por isso é que mais tarde era muito complicado quando nos diziam essa palavra, não era normalmente bem aceite, não a conhecíamos ainda. Depois o espaço no meio dos amigos. Esse era mais pequeno, sabíamos sempre que se seguíssemos certos “clichés”, atravessávamos calmamente esse campo. Ás vezes era mais complicado, com aquelas pessoas que nos faziam mal, esses pequenos - grandes - trigos no meio dos trilhos complicados. Mais tarde, procurávamos um canto pequeno que nos explicasse que coisas eram aquelas que sentíamos, sem ninguém saber, quando olhávamos para certas pessoas. Uns chamavam-lhe amor, outros chamavam-lhe “primeiros conhecimentos do coração”. Eu chamava-lhe “campo de trigo em labirinto”, perdia-me sempre um bocadinho. Um dia, tive de procurar no mundo do trabalho esse outro espaço, esses metros quadrados que me ensinaram quando eu não sabia falar. E encontrei o maior campo de trigo que alguma vez tinha visto. Fiquei aterrorizada quando percebi que o campo era realmente de perder de vista e que eu tinha de correr mesmo depressa para chegar a algum lado. Se calhar, ganhei alguns sonhos, se calhar sonhei um bocadinho e vi algumas estrelinhas no meio de um campo cheio de nada. Se calhar ganhei vontade de descobrir como se atravessa esta dúvida, este mundo enorme e abismal á minha frente. Confesso que neste dia gostava de ter aberto o meu manual na página 21 e ter visto as instruções para perder o medo, para ganhar confiança e vontade de correr. Acho que o que o meu manual ia dizer era que eu não precisava de correr e cansar-me muito, precisava só de ver tudo como um campo de trigo, cheio de sonhos e desejos. A verdade é que nunca nos ensinaram os metros quadrados da vida, o sentido de espaço do mundo, só nos disseram que era enorme e que teria muita gente à nossa volta.


1 comentário:

Ariana Rey Marcelino disse...

Princesa....
Comento neste, em relação a todos os que li. Neste momento ainda são poucos mas espero que em breve tenha muitas linhas escritas nesse teu tom calma, apaziguador e livre que tanto acalma o leitor.
Nada que escreves está perdido. Não posso escrever o que já li, porque apesar de sonhos antigos, momentos ingénuos, palavras sonhadoras, são ainda algo de muito intimo de muito nosso! Ainda sem máquina, auinda sem pc ou telemóvel. Quando nada nos transtornava sentámo-nos a beira da piscina numa noite só nossa de verão e escrevemos como se não houvesse amanhã. Repetidamente, dia após dia, fomos escrevendo o que nos passava pela cabeça, pelo coração. Guardo esse "livro" com tanto amor, como guardo a nossa amizade. O nosso campo de trigo ainda é o mesmo, temos trilhos traçados, caminhos cruzados e nunca esquecidos. Sem dúvida o espaço que nos aguarda é imenso, atingimos o apogeu da vida, dos sonhos de menina. Sou hoje o que sempre fui. No entanto, olho hoje para a vida de uma forma diferente. Pouco ingénua, por vezes com mágoa, algumas de forma brusca. Mas quando me falas em campo de trigo vejo-nos a passear nesse mesmo campo lentamente, fazendo pequenos S's, acariciando as plantas que nos tocam. Um sol imenso e um sorriso na cara. Temos vindo a construir o nosso Mundinho pedra sobre pedra. Trilho atrás de trilho. Encruzilhadas que repetidamente nos deixam na dúvida. Sento-me, observo, espero e depois decido. No entanto, o que nunca pude decidir foi o orgulho que sinto por ti, pela nossa amizade, simplesmente aconteceu e acontece a cada dia que passa.
Este nosso Mundinho é lindo, e vejo cada uma de nós com um sorriso, com uma alegria inexplicável. Somos muitas, partilhámos momentos únicos, a vida encaminhou-nos de maneira diferente. Mas cada uma de nós sabe o seu cantinho no coração da outra. Sem dúvida que guardo memorias para todo o sempre que serão a minha mão, a minha luz, em todos estes metros quadrados que me assustam.
Daqui a uns anos quando estiver sentada no meu sofá, a ouvir a chuva cair e as ondas a bater fortemente na areia, com uma chavena de cacau bem quente na mesa e a ler o teu livro com certeza verterei a lágrima da felicidade que só nós sabemos. Sabemos porque amamos, porque nos orgulhamos. Nada mais que isto, nada de muito complicado.

Estarás sempre aqui. Sentirei sempre o mesmo orgulho que sinto hoje. Avida não são dois dias...são dois dias uns atrás dos outros.

Ontem já foi...o hoje foge entre os dedos...o amanhã será um novo dia, cabe-nos decidir o que queremos fazer dele!

Gosto muito de ti***
Beijos*** Ary***