sábado, 21 de novembro de 2009

IV. «O navio dos Espelhos»


Não tenho medo daquilo que eu vejo. Tenho medo daquilo que eu não vejo, de todas as coisas que estão escondidas por detrás dos panos; atrás de uma esquina; dentro de um olhar; numa alma; numa casa; num abraço; num beijo; numa lágrima; num banco de jardim; num cinema; numa escada; em cima de um telhado; dentro de uma cama; atrás de uma roupa bonita; num jantar; num laço de avental; numa conversa; num sorriso. Tenho medo daquilo que as pessoas não mostram. Daquilo que não dizemos em voz alta para dizermos por debaixo dos lençóis. Das ruas que são compridas e eu não vejo onde acabam. Das casas grandes com famílias felizes [quando afinal se ouvem gritos à noite]. Daquilo que as crianças não dizem quando se escondem a brincar sozinhas num jardim. Tenho medo dos segredos. Da gaveta de baixo, onde se escondem as cartas que ninguém pode ler. Quando, por momentos ficamos lúcidos e dizemos realmente aquilo que sentimos. Dos olhares indiscretos que se fazem na rua, entre milhões de pessoas e em que não se disse nada. Tenho medo das fotografias que se escondem num álbum quando temos medo de dizer que esse momento foi realmente importante. De quando a palavra amor se associa à pessoa errada. Das mentiras. De todas as coisas que estão escondidas por detrás dos panos.

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