
Não tenho medo daquilo que eu vejo. Tenho medo daquilo que eu não vejo, de todas as coisas que estão escondidas por detrás dos panos; atrás de uma esquina; dentro de um olhar; numa alma; numa casa; num abraço; num beijo; numa lágrima; num banco de jardim; num cinema; numa escada; em cima de um telhado; dentro de uma cama; atrás de uma roupa bonita; num jantar; num laço de avental; numa conversa; num sorriso. Tenho medo daquilo que as pessoas não mostram. Daquilo que não dizemos em voz alta para dizermos por debaixo dos lençóis. Das ruas que são compridas e eu não vejo onde acabam. Das casas grandes com famílias felizes [quando afinal se ouvem gritos à noite]. Daquilo que as crianças não dizem quando se escondem a brincar sozinhas num jardim. Tenho medo dos segredos. Da gaveta de baixo, onde se escondem as cartas que ninguém pode ler. Quando, por momentos ficamos lúcidos e dizemos realmente aquilo que sentimos. Dos olhares indiscretos que se fazem na rua, entre milhões de pessoas e em que não se disse nada. Tenho medo das fotografias que se escondem num álbum quando temos medo de dizer que esse momento foi realmente importante. De quando a palavra amor se associa à pessoa errada. Das mentiras. De todas as coisas que estão escondidas por detrás dos panos.



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