Fazias barulho quando te tocava mas eras subtil nas palavras que escolhias. Guardei-te como quem guarda um objecto de valor, como quem ganhou um diamante e não pode nunca deixá-lo cair. Como se perder-te fosse perder o meu raciocínio, a minha liberdade. Mesmo que hoje já não consigas fazer o mesmo som, só tu sabes o amor que te tenho e as palavras, ingénua de miúda, que te invocava. Mesmo que hoje permaneças intacta no meu quarto, olho para ti e sei que só tu sentes o mesmo cheiro que eu sentia naquela casa antiga, onde nos escondíamos as duas. Sentava-me contigo e escrevíamos mil histórias, inventávamos mil personagens. Mais tarde comecei a escrever sobre amores impossíveis. [como se eu soubesse o que era o amor]. Afinal, só precisava de ti para passar um dia bem acompanhada e a sonhar. Sempre a sonhar. Eras tu o meu mundo, o meu pequeno refúgio para aquilo que eu não entendia. Eras o meu escape e eu fazia a realidade para me perder contigo, ouvir o teu som, tac, tac, tac nas paredes do meu quarto. Hoje escrevo a computador. Concertar-te seria perder todo o dinheiro que tenho para pagar as contas da casa e as viagens. Ai as viagens. Ás vezes não entendia porque é que nem sempre tinha histórias para inventar. Os anos passaram e nunca mais consegui escrever. E eras só a minha máquina de escrever, a mais antiga, a única que eu gostava. E é com a recordação de um filme e com o sabor doce de momentos que passei contigo que retomo a escrita e espero que me oiças.



Sem comentários:
Enviar um comentário