terça-feira, 22 de dezembro de 2009

IX «O Início»


Aquele amor fez-se em silêncio. Só os olhos dele, os dela, os grandes e brilhantes olhos. Puxaram a roupa da cama para cima e ela olhava para ele - Não é fácil desejar o teu corpo - dizia. Depois de tanto tempo, olhar para ele e ver uma pessoa nova, daquelas que nos aparecem pela frente sem sabermos bem como nem porquê, não era fácil. Mas ele ainda era o mesmo, ela é que não o conhecia assim. - E agora sei as tuas curvas, que estranho. Sinto-te como um aconchego, um afago no coração todas as noites. É bom saber que provavelmente estás a pensar em cada pormenor do fim-de-semana, assim como eu - Olhou para ele e apertou o seu corpo no dela e sentiu o seu cheiro. Esse cheiro que não nos sai do corpo. Só copos, copos e corpos. Há noites em que o amor, só por si, nos embriaga. E as outras noites... aquelas em que ela fica em casa, deitada na cama, tapada pela rede de princesa, reflectindo sobre a importância da escrita: esse acto inadiável da alma que tantas vezes se esconde atrás de uma jarra de flores. Questionava-se porque é que tantas vezes não tinha a certeza da casa; do sofá da sala; do jardim; das flores da cozinha; do tapete da entrada; da mesinha ao canto do corredor (...) e mesmo assim se sentia feliz com pequenos momentos como estes. Quando o amor, envolvido na incerteza e na paixão, se faz em silêncio.

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