terça-feira, 17 de novembro de 2009

II. «Lista de espera»


Falavam-me sempre de sentimentos e eu pensava que sabia o que eram; a que sabiam; que cor tinham; o que queriam dizer. Atribuía-lhes uma imagem e fechava no meu cofre como se em vez de coleccionar moedas ou selos, coleccionava sentimentos. Era como se fosse uma lista. Sempre que queria ia ver o que deveria fazer caso este ou aquele sentimento chegasse. Era fácil quando eu pensava que os conhecia a todos. Era fácil quando a colecção era pequena e eu acumulava sentimentos repetidamente.

Hoje deparo-me com a adversidade de sentimentos novos todos os dias. A minha lista anda confusa, não sabe muito bem que nome atribuir, que imagem dar, troca cores e atitudes. Põe as opções no lugar errado e ás vezes bloqueia. Esses são os momentos em que fico calada e não sei que nome dar ás coisas. Os sentimentos aparecem sem eu estar à espera e fico sem saber muito bem o que fazer. Nesses momentos não tenho lista, não tenho colecção. Tenho um conjunto de interrogações na minha cabeça que não tem nome nem cheiro.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

I. «A escrita»


Fazias barulho quando te tocava mas eras subtil nas palavras que escolhias. Guardei-te como quem guarda um objecto de valor, como quem ganhou um diamante e não pode nunca deixá-lo cair. Como se perder-te fosse perder o meu raciocínio, a minha liberdade. Mesmo que hoje já não consigas fazer o mesmo som, só tu sabes o amor que te tenho e as palavras, ingénua de miúda, que te invocava. Mesmo que hoje permaneças intacta no meu quarto, olho para ti e sei que só tu sentes o mesmo cheiro que eu sentia naquela casa antiga, onde nos escondíamos as duas. Sentava-me contigo e escrevíamos mil histórias, inventávamos mil personagens. Mais tarde comecei a escrever sobre amores impossíveis. [como se eu soubesse o que era o amor]. Afinal, só precisava de ti para passar um dia bem acompanhada e a sonhar. Sempre a sonhar. Eras tu o meu mundo, o meu pequeno refúgio para aquilo que eu não entendia. Eras o meu escape e eu fazia a realidade para me perder contigo, ouvir o teu som, tac, tac, tac nas paredes do meu quarto. Hoje escrevo a computador. Concertar-te seria perder todo o dinheiro que tenho para pagar as contas da casa e as viagens. Ai as viagens. Ás vezes não entendia porque é que nem sempre tinha histórias para inventar. Os anos passaram e nunca mais consegui escrever. E eras só a minha máquina de escrever, a mais antiga, a única que eu gostava. E é com a recordação de um filme e com o sabor doce de momentos que passei contigo que retomo a escrita e espero que me oiças.

O porquê deste Blogue.

Porquê não sei. Tenho escrito ao longo de toda esta vida e decidi passar cá para fora. Alguns textos são recentes, outros nem por isso. Decidi imaginar que este blogue poderia vir a ser um dia o livro que nunca escrevi."Everyday is another chance."