Falavam-me sempre de sentimentos e eu pensava que sabia o que eram; a que sabiam; que cor tinham; o que queriam dizer. Atribuía-lhes uma imagem e fechava no meu cofre como se em vez de coleccionar moedas ou selos, coleccionava sentimentos. Era como se fosse uma lista. Sempre que queria ia ver o que deveria fazer caso este ou aquele sentimento chegasse. Era fácil quando eu pensava que os conhecia a todos. Era fácil quando a colecção era pequena e eu acumulava sentimentos repetidamente.
Hoje deparo-me com a adversidade de sentimentos novos todos os dias. A minha lista anda confusa, não sabe muito bem que nome atribuir, que imagem dar, troca cores e atitudes. Põe as opções no lugar errado e ás vezes bloqueia. Esses são os momentos em que fico calada e não sei que nome dar ás coisas. Os sentimentos aparecem sem eu estar à espera e fico sem saber muito bem o que fazer. Nesses momentos não tenho lista, não tenho colecção. Tenho um conjunto de interrogações na minha cabeça que não tem nome nem cheiro.
Fazias barulho quando te tocava mas eras subtil nas palavras que escolhias. Guardei-te como quem guarda um objecto de valor, como quem ganhou um diamante e não pode nunca deixá-lo cair. Como se perder-te fosse perder o meu raciocínio, a minha liberdade. Mesmo que hoje já não consigas fazer o mesmo som, só tu sabes o amor que te tenho e as palavras, ingénua de miúda, que te invocava. Mesmo que hoje permaneças intacta no meu quarto, olho para ti e sei que só tu sentes o mesmo cheiro que eu sentia naquela casa antiga, onde nos escondíamos as duas. Sentava-me contigo e escrevíamos mil histórias, inventávamos mil personagens. Mais tarde comecei a escrever sobre amores impossíveis. [como se eu soubesse o que era o amor]. Afinal, só precisava de ti para passar um dia bem acompanhada e a sonhar. Sempre a sonhar. Eras tu o meu mundo, o meu pequeno refúgio para aquilo que eu não entendia. Eras o meu escape e eu fazia a realidade para me perder contigo, ouvir o teu som, tac, tac, tac nas paredes do meu quarto. Hoje escrevo a computador. Concertar-te seria perder todo o dinheiro que tenho para pagar as contas da casa e as viagens. Ai as viagens. Ás vezes não entendia porque é que nem sempre tinha histórias para inventar. Os anos passaram e nunca mais consegui escrever. E eras só a minha máquina de escrever, a mais antiga, a única que eu gostava. E é com a recordação de um filme e com o sabor doce de momentos que passei contigo que retomo a escrita e espero que me oiças.
Porquê não sei. Tenho escrito ao longo de toda esta vida e decidi passar cá para fora. Alguns textos são recentes, outros nem por isso. Decidi imaginar que este blogue poderia vir a ser um dia o livro que nunca escrevi."Everyday is another chance."